Scem Sentidos...
Não há uma só regra que seja válida em todas as circunstâncias, nem uma instância a que se possa apelar em todas as situações.


Quarta-feira, Junho 29, 2005  

Por ora, dois comentários:

1) Cadê os meus arquivos?

2) Saudades disso aqui!

posted by maria | 11:29 PM


Terça-feira, Novembro 09, 2004  

Sobre aquela outra:

Sofria de uma melancolia sem remédio. Era dessas pessoas que padecem eternamente as saudades do ventre da mãe: o nascimento se lhes afigura como uma injúria sem perdão. Um dia, atiraram-lhe à cara esta meia verdade: "– minha querida, veja bem, tem uma vida linda, seus filhos são ótimos, estão crescidinhos e já nem lhe roubam o sono da noite, tem um marido exemplar, uma casa linda e um emprego que todo mundo pediu a deus. Todos te adoram!, você não tem do que reclamar..." O comentário veio como uma ofensa e a reação da vítima foi uma contestação enérgica. Enraivecida, xingou e esbravejou até que os soluções e as lágrimas lhe restituíssem a serenidade das pessoas resignadas.

Seguiu a vida normalmente, reclamando alguns dias e desfrutando de outros. De qualquer forma, quando voltavam com força as náuseas e os dissabores sem explicações, eram as lembranças daquele dia, além da amizade cultivada pelas pessoas que ali estavam presentes, que lhe consolavam, suscitando prazer e uma espécie de comoção. Finalmente, aprendera a usufruir de sua imaginação!

posted by maria | 11:19 PM


Terça-feira, Outubro 05, 2004  

Sobre ela...

Disseram-me que, quando menina, era criança quieta e bondosa. Foi dar numa adolescente tranqüila, um pouco lânguida talvez, à qual sucedeu uma jovem triste. Já adulta, conceberam-na indiferente, sendo o esplendor de seu caráter restaurado na velhice: serena.

De fato, nunca compreenderam os seus silêncios.

posted by maria | 11:45 PM


Quinta-feira, Setembro 30, 2004  

Um dia é do cão, o outro é do cão também...

Aquele mesmo Senhor, aquele que eu tanto admirava, começou – assim me parece – ele começou a se sentir um pouco incomodado. Talvez fossem os meus olhares, excessivos!, talvez fosse o sorriso besta que eu lhe devotava, o ouvido sempre atento. Talvez tenha lhe passado pela cabeça que eu pudesse estar apaixonada, mas – pensamento descabido! – se isso ele cogitou, deve ter logo desistido da idéia. Fato é que, ficou bem claro, ele resolveu se aproximar, não sei se por vaidade ou por pura curiosidade. Interessou-se por mim, pela minha vida, passou a me fazer perguntas e a ouvir com cuidado o que eu tinha a dizer. Foi então que, na primeira oportunidade, eu lhe confessei: eu queria ter um pai igual a você! O homem fraquejou. O corpo tremeu, e os olhos, comovidos, apertaram-lhe a cara – esforço inútil para não deixar rolar a lágrima. Procurou minhas mãos – pela primeira vez nos tocamos – e depois de apertá-las, ele se foi, deixando-me um beijo na testa.

Mais tarde vim a saber: a filha tinha por ele um ódio irremediável.

posted by maria | 11:53 AM


Segunda-feira, Setembro 27, 2004  

Pessimismo

Com um intervalo de seis dias, roubaram-me dois carros estacionados no mesmo lugar. Em quinze anos, este país, além de inabitável, será extremamente reacionário e conservador – talvez até fascista. E, tal como hoje, será impossível distinguir as vítimas e os culpados. Fantastisk!!!

posted by maria | 11:46 PM


Quinta-feira, Setembro 23, 2004  

De repente...

... de repente, há muita alegria neste coração; felicidade, não digo, mas um amor à gente. E conquanto a palavra até saia assim, mais natural, fica difícil a escrita; emperra. Impera aí o medo às frivolidades, porque dor, confusão e angústia, mesmo fingidas, parecem um tanto mais profundas, mais belas. Como se não houvesse revelação na alegria, como se ela não fosse digna de nota, não valesse a pena. Não vale? E embora a imaginação, ela também, emperre, o corpo sabe o quanto vale – até arrepiar os pêlos... a alegria... onde?

posted by maria | 1:19 AM


Terça-feira, Agosto 03, 2004  

Um dia é do cão, o outro dia é do caçador

Conversávamos. Ele me olhava com um olhar complacente, às vezes terno, um olhar cansado, descolorido. Respondia com altivez as minhas perguntas, sempre deixando escapar um sorriso irônico e enrugado, muito irônico – cínico, talvez. Quanto às minhas opiniões, obsequiava-me amavelmente, chamava-me ingênua e não consentia discutir coisa alguma. Afinal, quantas gerações não havia entre nós – assim me explicava delicadamente a falta de paciência para com os meus argumentos. Eu sentia uma admiração doída por toda a sua pessoa: quanta coisa já tinha vivido!, quanta coisa já tinha experimentado!, quanta coisa ele conhecia! Mas eu me resguardava de sua soberba, e todas as vezes que ele me contrariava, eu sentia, no fundo do peito, um alívio vigoroso porque ainda desfrutava dos meus jovens vinte e três anos. Ele também o sabia, e, por isso, não deixava de se irritar com a minha compaixão.

posted by maria | 4:11 PM


Quarta-feira, Julho 28, 2004  

 
Para Letícia, com carinho

Está grafado aqui: “No princípio era o Verbo!”
Esbarro! Quem me ajuda no caminho acerbo?
É impossível estimar tão alto o verbo assim!
Preciso de outra forma traduzir! Para mim,
Iluminado do Espírito e com a sua assistência,
Pode entender-se assim: “No início a Inteligência!”
Reflete bem agora o que essa frase expressa,
Para que o teu escrever não corra tão depressa!
A Inteligência só, tudo cria e reforça?
Devia estar escrito: “Ao princípio era a Força!”
Enquanto lanço agora essa última linha,
Algo me inspira além e para mim caminha.
O Espírito me ajuda! E diviso um clarão.
Escrevo confiante: “Ao princípio era a Ação!”
 
(Goethe, em “Fausto”)

posted by maria | 1:36 AM
 

 Para quem tem mania das coisas “às claras” – ou: ode às ambigüidades:

 
Não necessariamente aprovamos ou desejamos o oposto daquilo que criticamos. Tanto melhor assim!

****

O que a este se lhe cai como uma terrível ofensa, àquele lhe soa como um afago-elogio. Tanto melhor assim!

posted by maria | 1:13 AM


Segunda-feira, Julho 19, 2004  

 
Hoje não!
 
No iogurte, pertenço a uma comunidade chamada “só mais cinco minutinhos”. Às vezes, isso parece o leitmotiv da minha vida. Portanto: só mais cinco minutinhos!

(Rezemos: não quero nunca perder o senso de humor! – mas faltou pouco para esquecer a senha do blogger...)
 
ps: quantos recursos novos e bacanas! - odeio textos não "justificados"!!!

posted by maria | 3:36 AM


Quarta-feira, Junho 23, 2004  

Incompreensível ou indizível

Eu queria possuí-las, mas, definitivamente, não as tenho. Eu não tenho palavras...

posted by maria | 1:20 PM


Quinta-feira, Junho 17, 2004  

Banalidades

Era madrugada e o silêncio me permitia ouvir com precisão tudo o que se passava na avenida mais próxima de casa. Ouvi uma derrapada e logo em seguida o barulho estardalhaço de uma batida de carro. Seguiram-se gritos de horror e ameaças. Uns dois minutos depois, uma sirene de ambulância apontava longe, numa direção ainda não identificável. Aos poucos o barulho se aproximava, mais alto, mais intenso – mais insuportável –, subia a Contorno, provavelmente vinha direto de algum dos hospitais. Mais um silêncio, porém curto, quebrado pela mesma sirene que, inicialmente intensa, foi aos poucos desaparecendo (e reaparecendo) pelas ruas da cidade. Mais um infeliz – pensei – e, um pouco irritada pela interrupção, voltei confortável para meus afazeres madrugais.

posted by maria | 2:15 AM


Terça-feira, Junho 15, 2004  

Dúplice

É impressionante a ingenuidade de grandes pensadores quando não distinguem entre realidade e verdade. Está ali a realidade!, dura como ela só, impassível, implacável, oh!, irresistível, a realidade. Eu quero apalpá-la, envolvê-la – se possível gozá-la – para que, assim, senhora de mim e de tudo que me rodeia, eu possa conhecer aquele poder irresistível e autoritário desfrutado por todos os grandes deuses. Está ali a realidade, vejo-a, e a cada momento ela se me apresenta em tonalidades distintas, em formas variadas; sinto-a, mas a cada toque, uma nova textura me é revelada; e se acima de tudo, eu a desejo – oh!, essa fome infame de conhecimento – é com altivez e soberba que (não) sou correspondida. Sim, está ali a realidade, essa inovadora de contrastes, impassível?, implacável?, impenetrável?... é preciso gozar a realidade. Pois que venha, antes, a verdade – molenga e preguiçosa – e em todas as suas perspectivas...

posted by maria | 1:38 AM


Terça-feira, Maio 25, 2004  

Da solidão naquilo que sabemos

Mais uma frase de impacto: concebia-se gênio, embora não fosse muito mais que um irremediável teimoso.

posted by maria | 5:56 PM


Segunda-feira, Maio 24, 2004  

Com a pulga atrás da orelha... – ou sinuca de bico

Já disse, mas torno a repetir: louvemos a dúvida, que nos detém, impedindo as grandes revelações, bem como catastróficos enganos, calúnias e arrependimentos!

Louvemos a dúvida e, com ela, a covardia e a moderação!!!

posted by maria | 3:31 AM


Sexta-feira, Maio 14, 2004  

Sociologia Urbana – ou dos antropólogos que somos nós

Para um trabalho de faculdade era preciso ir a campo fazer uma observação participante do uso do espaço de um fragmento urbano. Escolhi fazer o trabalho a partir da observação e comparação entre uma padaria, digamos, moderna – leia-se uma padaria cujo projeto de decoração nos remete a um “shopping center” – e uma tão tosca quanto charmosa mercearia que há aqui perto de casa. Após algumas horas de observação, com pouca participação, já havia tirado algumas conclusões sobre a mercearia, poucas, mas suficientes para preencher o relatório do trabalho. Preparava para ir embora quando um acontecimento no interior da mercearia veio como que destruir toda a minha interpretação sobre o lugar. Tive vontade de matar a mulher que apareceu por lá e desencadeou o processo que testemunhava contra minhas geniais conclusões. Mas que objeto de estudo impertinente – como pode aparecer assim do nada pra estragar o bom andamento de minha pesquisa! Imagino quantos índios já não exerceram o mesmo papel daquela mulher e, tal como ela, foram absolutamente ignorados.

posted by maria | 1:55 AM


Sexta-feira, Maio 07, 2004  

(em néon vermelho): auto-deboche – a sensação do século XXI

Detestável, andava sempre com pranchetas e tabelas suadas em embaixo do braço, um laptop pendurado no ombro esquerdo, a sola do sapato desgastada – a mulher vivia insistindo para que comprassem um novo, ele, “não percebe mulher”, não tinha tempo. Abandonara esposa e amante, filhos, amigos, parentes e outros bichos de estimação. Nos eventos, chegava pedindo desculpas pelo atraso, e depois se ia, desculpando-se, mais uma vez, pela saída apressada. Vivia atolado pelo tempo, consultando o relógio, correndo de um lado pro outro, cheio de responsabilidades, de cálculos e números, de compromissos. Carente, era o que fazia para se sentir uma pessoa importante.

posted by maria | 2:08 AM


Sábado, Maio 01, 2004  

Sensualismo italiano:

“Porém, pondo à parte as boas maneiras, o aspecto de um daqueles monumentais pastelões era bem digno de provocar frêmitos de admiração. O ouro brunido do invólucro, a fragrância do açúcar e da canela que dele emanava, constituíam apenas o prelúdio da sensação deliciosa que o interior suscitava quando a faca penetrava na crosta: primeiro vinha um vapor carregado de aromas; depois, eram as miudezas, os ovos duros, os pedacinhos de galinha, de presunto, de trufas quês e avistavam na massa untuosa, muito quente, do macarronete cortado, a que o caldo de carne dava uma preciosa cor de camurça.”

(Lampedusa)

posted by maria | 3:01 PM
 

Duvida fatídica

É a dúvida o que mantém o entendimento e impede que os homens se ataquem uns aos outros em plena à luz do sol de meio dia.

posted by maria | 2:55 PM


Sábado, Abril 24, 2004  

Valeu, Let!

Mas pra quem troca cineasta por cineastra, trocar salva por salma é o de menos, né? Dislexia é o nome disso ou, quem sabe, ouvido sujo!

ps. e o meu pai que passou a vida achando que era “uso campeão”, até eu contar: usucapião, pai, usucapião

posted by maria | 2:58 PM


Sexta-feira, Abril 23, 2004  

"Respeitável público..." Não, melhor assim: "Senhoras e Senhores...." Não... Enfim... apagaram as luzes e a cortina subiu, é isso. Depois, uma salma de palmas pra ele!

posted by maria | 2:31 AM


Quinta-feira, Abril 15, 2004  

A ilha – ou, novamente, os nervos...

Por muito tempo aceitou calado, achando desnecessário discutir. Congelou o sangue e petrificou os nervos, mantendo um sorriso e executando com exatidão e automatismo o papel exemplar que lhe cabia. Inicialmente inabalável, perdeu sono e fome, e foi o tormento físico que lhe tornou irritadiço – estraçalhando-lhe a paciência. Seguiram-se dias de muito barulho, respondeu amabilidades com desaforos, deixou à mostra os rancores e ressentimentos, vingou-se dos algozes – e também dos inocentes. Depois se aquietou, passivo, indiferente, inerte, os nervos - rijos - lhe consumindo por dentro. Faleceu calado – desnecessário discutir.

posted by maria | 12:41 AM
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